Salvador, Sexta-feira, 11 de setembro de 2009,
Caro, M.
Que bom saber que ainda existe um pulso em você, meu mestre.
Embora a passos lentos graças às dificuldades técnicas e emocionais, a leitura do Kurzweil está progredindo (assim como tantas outras).
O inglês ao ínicio foi um terrível empecilho que desencadeou sérias crises de procrastinação (doença crônica que assola toda a existência), mas que com o tempo e com toda a paciência que me foi dada (nessas horas eu agradeço pela minha condição limitada, rsrs) estão sendo progressivamente e satisfatoriamente vencidas.
Prossigo portanto, ressaltando a importância da doença crônica a qual me referi. Doença essa que tem suas raízes no que pode ser a peça chave a dar mais sustância ou a desconfigurar completamente a teoria da singularidade: a motivação.[1]
Afinal eu, assim como todos os seres que decidem pensar um pouco mais (e não vou falar seres humanos para não restringir a coerência do meu discurso a este século), chego a conclusão de que "já que em bilhões de anos o universo deixará de existir - e consequentemente a própria existência como a concebemos-, qual o sentido de arquitetar um novo ser mais inteligente do que eu"? Para quê?
No entanto, eu sou humano e tolo o suficiente para ler um Shakespeare ou ouvir um Thelonious da vida, ignorar essa profunda questão filosófica e continuar em busca do aprimoramento existencial. Mas e os seres mais competentes -leia-se insensíveis- que me sucederão? Uma hora realizarão que, no niilismo a que se encontram primordialmente submetidos, pouco interessa qualquer coisa, até mesmo o caminho rumo a singularidade. E no máximo passarão o resto de suas existências jogando não The Sims, nem Spore, mas algum outro simulador mais complexo e interessante que deva vir a existir (admitindo a possibilidade de que a própria existência talvez não passe de uma simulação bem complexa -tá certo, eu assumo que ainda não abri mão do meu agnosticismo por completo-).
Contudo, convenço-me cada vez mais da coerência e da adaptabilidade da ideia da singularidade no mundo em que vivemos (embora seu conceito e seus referenciais ainda estejam um tanto inconsistentes em meu particular) e acredito acima de tudo na capacidade humana de interferir no decorrer desse percurso. Justifico tamanha crença nos "homens que sabem" não por acreditar em alguma capacidade especial inerente a nossa espécie, mas justamente por valorizar as limitações aos quais ainda estamos submetidos e que, por sorte, nos impede de abrir mão da ingênua ficção da motivação e de dar o próximo passo rumo à aceitação da nossa insignificância. Cabe ao homem, estando nessa linha limítrofe, borrar os alfarrábios do "destino" (ou leis da física se preferir) e concretizar essa possibilidade também -não só em paralelos- mas no nosso universo.
Porque não buscar a perpetuação dessa motivação-chave e, unindo-a ao vetor da inteligência, transmiti-la irrestritamente para as próximas gerações confluindo os dois vetores rumo a uma singularidade relativamente melhor?. <--(de fato tão bonito, humano e tolo não?)
Antes de concluir explico-lhe que o vômito de palavras aqui presente contêm algumas das minhas vísceras e se configura literalmente como um parcial desabafo escatológico das coisas que têm -ou 'tem' após a reforma- me assolado (leia escatologia nos seus dois sentidos: tanto o coprológico quanto o póstero).[2]
Concluo portanto respondendo a interessante imagem que me enviaste de maneira um tanto pleonástica, reinterando, após o meu discurso, as palavras repetidas do célebre Chaplin, um tolo um pouco a frente do seu tempo.
"We have developed speed but we have shut ourselves in:
machinery that gives abundance has left us in want.
Our knowledge has made us cynical,
our cleverness hard and unkind.
We think too much and feel too little:
More than machinery we need humanity;
More than cleverness we need kindness and gentleness."[3]
Abraços saudosos,
Angelo.
Nota.: Preciso de um nome fictício mais interessante, legal e estiloso.
Fontes:
[1](BOYDEN, Edward. Technology Review: The singularity and the fixed point. 04/09/2009. http://www.technologyreview.com/biomedicine/23354/page1/)
[2](Dicionário. escatologia:s. f.1. Tratado acerca dos excrementos. 2. Teol. catól. Pretensa ciência das coisas que hão-de!hão de suceder depois do fim do mundo.. http://priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=escatologia.
coprologia: s. f. Estudo das matérias fecais.http://priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=coprologia.
póstero: adj. 1. Que há-de!há de vir depois de nós; vindouro.[/i] http://priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=p%C3%B3stero.)
[3](CHAPLIN, Charles. The great dictactor's final speech. http://www.goodreads.com/story/show/36161.Food_for_Thought_)
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
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